Quando eu era pequena, tá, bem menor do que eu sou hoje ueréver, meu pai foi visitar lá aquele povo da América do Norte e me trouxe um tênis de presente. Tipo, uau. Era um tênis, assim, totalmente sem cadarço, todo estilizado, e eu não via a hora de por o tênis no pé.
Acontece que eu não consegui calçar os tênis, porque, graças a Deus (ou a biologia, vai de cada um) eu nasci com um pé direito E um pé esquerdo. Tá, e dai? E dai que quando eu abri a caixa tinha dois pés esquerdos.
TCHAM TCHAM *música de suspense dramático (?)*
E como nós, familia feliz e unida, irÃamos destrocar aquele par de sapatos? Não irÃamos, porque o tênis era lá do povinho do mal, e o selinho de troca não ia valer até o dia em que eu fosse velha (e rica) o suficiente para ir lá trocá-lo.
Ficou valendo mesmo a intenção.
Eu lembrei disso porque essa semana eu fui comedida por uma dor que, ironicamente, fez com que eu me sentisse bem. Fez com que eu me sentisse bem porque fez com que eu tivesse 5 dias de atestado e pudesse vir para São Paulo ficar um tempo com a minha famÃlia, o que há muito (por causa da Livraria Cultura) eu não conseguia fazer.
E eu aproveitei cada minuto dessa vinda. Desde a estrada que eu incansavelmente quando criança trilhava todo final de semana, e que agora velha eu já nem lembrava mais como era, até os passeios sagrados ao shopping com a minha tia, sempre regados a compras, McDonalds, stresses e afins. Era como ter a minha vida velha de volta. Aquela vida que a gente não precisa de muito para ser feliz.
A vida tem mesmo dessas coisas, não? A gente não deveria ter que ter motivos para nos lembrar do quanto a nossa famÃlia, ou o sorriso de uma criança, ou o abraço de um primo faz a gente feliz. Ou o quanto a casa cheia, os gritos, tudo aquilo nos traz de volta um sentimento bom. A gente não deveria esquecer disso nunca.
Então, por que é que a gente esquece?
Meu tio comprou um Nintendo Wii para os meus primos.
Eu sempre achei que toda essa tecnologia afeta as crianças, faz com que as pessoas se tornem frias, se tornem sozinhas… mas nesse final de semana, o Wii aproximou todo mundo.
E é a coisa mais linda do mundo ver todo mundo junto, se divertindo.
Refletindo sobre isso percebi que a tecnologia nada mais faz do que tentar aproximar cada vez mais as pessoas. O mundo anda tão corrido, tão cheio de trabalho, estudo, dinheiro, ganância, ambição, que as redes sociais, os video-games, Second Life, MSN ueréver só existem para que essas pessoas (como eu) que não tem tempo (como eu) possam não se sentir cada vez mais solitárias e esquecidas.
Esse final de semana me fez refletir e ver muita coisa. Me fez ver que a minha famÃlia é sim tudo para mim. Me fez ver que não interessa o quanto eu trabalho ou estudo, nenhum dinheiro ou sucesso no mundo pode substituir um abraço dos meus primos dizendo ‘dome ati, eu amu vuxe, num vai embola’ (dorme aqui, eu amo você, não vai embora, para os leitores desprovidos de linguagem infantil) e que se a vida é difÃcil é porque em algum momento você deve ser recompensado.
Então eu sou grata pela minha dor no rim. Sou grata por me mostrar que ainda há tempo para recuperar tudo isso, que há tempo de ver que cansaço nenhum pode me impedir de fazer o esforço de querer estar perto de quem me faz bem. Porque eu já sofro demais com horários, com a sociedade, para ficar me afundando em mágoas quando tudo que eu necessito já está aqui.
Sou grata por me fazer perceber que irreversÃvel, só mesmo trocar os tênis que eu ganhei do meu pai quando pequena, porque o resto… o resto é simplesmente consequência de atos (bem ou mal) pensados e executados.
Agora, com licença, é a minha vez de jogar boliche no Wii (que por sinal, invicta contra meu pai, que disse que as mulheres não tem coordenação - assunto para ooooutros posts. rs. Te amo, papo! =D)